Tuesday, June 03, 2008

Primavera Sound 08

(Minha resenha do festival, que foi publicada no Rraurl hoje. )
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Vamos começar pelo fim. 5h da madrugada de domingo 1o. de junho. Chuva torrencial. Multidão pulando enlouquecida e encharcada concentrada em um único palco, cantando Black Sabath.

Para chegar até lá, o Festival Primavera Sound 2008 realizado no espetacular Parc Del Forum na cidade de Barcelona teve três dias, cinco palcos e um auditório e mais de 100 bandas e djs que foram de Public Enemy a Tindersticks.

Até 2005 o festival acontecia no famoso Monte de Montjuic. Mas por protestos da populacao e pressão da prefeitura que precisava trazer eventos para a super estrutura do Parc del Forum, o Primavera Sound – esse ano agregando o nome do seu maior patrocinador a cerveja Estrella Damm- foi transferido para lá.

O Forum é impressionante. Ele fica na praia e tem a arquitetura grandiosa moderna típica das obras novas de Barcelona. São super estruturas de cimento abertas – se chovesse, ia complicar- praticamente em cima da areia. Dos 5 palcos existentes- Rockdelux, o principal, Jageimester, ATP, Estrella Damm e CD Drome, os dois primeiros tinham o marzão azul bem atrás.

DAY 1- quinta, 29/05- Sol, hip hop e Portishead

Nada como comecar o Primavera Sound com um showzinho light. Eu já tinha visto MGMT há pouco tempo e queria tirar a prova de como os meninos de NY funcionariam em outro continente.

Eles foram anunciados por uma criança, que parecia um clone de Andrew VanWyngarden, com direito a caixinhos loiros e faixa hipponga na cabeça. A banda entrou no palco principal para uma platéia ainda um pouco vazia, as 19h30. Todos com seus wayfarers coloridos e Andrew VanWyngarden com sua tunica psicodélica aberta no peito.
O início foi morno. O show foi melhorando a partir de Eletric Feel, acompanhando proporcionalmente a popularidade dos hits.

Andrew VanWyngarden brincou algumas vezes com o Vampire Weekend- em uma entrevista recente quando perguntados sobre quem merece um “bad karma”, a dupla MGMT respondeu “Vampire Weekend”. Andrew disse, com sarcasmo, que não devíamos acreditar no que lemos e depois dançou com uma faixa que tinha a pergunta fatidica de um lado e o nome Vampire Weekend de outro.
Ben, que havia passado o show inteiro de costas para o resto da banda só se uniu a Andrew em Kids, que foi a última e melhor do show. Andrew não desceu para a galera como faz normalmente mas chamou o “kid” que havia anunciado a banda para dançar com eles no palco. Nesse final a gente sentiu que o MGMT sabe relaxar e divertir. Pena que eles só tem feito isso em alguns momentos.

Eles foram seguidos no mesmo palco pelos alemåes do Notwist, que faziam um hard rock com baixo pesado, e conversavam simpáticos em espanhol fluente com a plateia.

No Palco Jagermeister, o mais impressionante do festival por ficar descendo uma escadaria, bem EM CIMA do mar, os 4 meninos de L.A do Health assustavam qualquer desavisado que passasse por ali. O rock deles é muito mais experimental e pesado ao vivo. Quem só tinha ouvido o remix de Crystal Castles para Crimewave nunca reconheceria a original ao vivo. O vocalista alternava na mesma música uma voz suave e gritos infernais enquanto os outros 3 integrantes faziam uma performance caótica. Engraçado que o slogan do Jagermeister escrito nos banners ao lado do palco em que o Health tocava era “Release the Beast”.

Flavor Flav, Chuck D e seu Bomb Squad tocaram o legendario It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back para uma plateia principalmente de trintões que conheciam todas as letras do Public Enemy.
A voz do Chuck D continua tão igual, que no começo do show parecia um Play Back.
Esse era um dos shows mais esperados por mim. Mesmo sentindo que passou o tempo da violência (no bom sentido) de uma apresentaçao ao vivo do Public e que alguns ícones- como as coreografias- ficaram um pouco caricatas, os caras ainda tem força. E as músicas fazem total sentido. O show terminou com Flavor Flav pedindo para que a gente levantasse os pulsos “to fight the power, for the peace”. E todo mundo obedeceu.


Portishead.
Beth Gibbons praticamente imóvel grudada em seu microfone hipnotizou completamente a plateia, em um show lindo muito parecido com o do Coachella no mês passado. A emoção em cada música, o clima denso, as imagens PB distorcidas no telão eram as mesmas. Mas em um espaço e com um público menor, o que nos deixava ficar mais perto do palco, o show ficou ainda mais arrepiante, do começo ao fim.

Lembrei de uma entrevista recente da banda em alguma revista gringa onde eles diziam que enquanto a maior parte das músicas funciona como um tipo de escapismo, o som do Portishead vem muitas vezes de angustias e por isso pode causar o mesmo sentimento em quem ouve.
Participacao rapida de Chuck D em “Machine Gun”. Engraçado como até ele nesse “clima Portishead” parecia outra pessoa.

E o hiphop voltou pro palco Rockdelux com De La Soul, super aclamado tanto por Public Enemy como por Portishead. Eles entraram no palco bem humoradíssimos. Até deram uma exagerada nas brincadeiras com a plateia. Do tipo “qual lado é mais hip hop, o pessoal do lado direito ou esquerdo?”. Mas humor a parte, os caras estão em forma, e colocaram todo mundo pra dançar, especialmente com a clássica e deliciosa Saturday.

Quando a super programação do palco Rockdelux acabou, conseguimos ir ver Vampire Weekend. Os meninos com cara de “college boys” fizeram uma apresentação simples, sem grandes pretensões. E ótima. A platéia (de fãs) ouviu todos os hits feliz.

As 3h45 da madruga, antes de ir embora, conseguimos ver Midnight Juggernauts no meio da fumaça/gelo seco que saía do palco comandar a mistura de electro e rock (mais esse do que aquele) para uma turma de pouquíssima gente sóbria e sem um copo na mão.

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Day 2 – 30/5- Volta de Sonics, Devo e a diva Cat Power

Chegamos a tempo de um finalzinho de Cribs, animado. Ao mesmo tempo que The Mary Onettes tocava seus pop rocks no palco Jagermeister (o em cima do mar- o que já dava uma vantagem para eles).



Bishop Allen podiam ser meus ou seus vizinhos. Eles aparentam estar no palco sem máscara ou ego. Estavam se divertindo tocando baladinhas pop como Click Click Click para um público bem fã.

Os tios do Devo começavam o show com seu clássico uniforme amarelo e laranja enquanto No Age fazia uma barulheira boa lá em baixo.
Depois passei novamente pelo Devo e todas as caixas de som pifaram. Como naquele momento eles (ou alguém) estavam vestidos de bichinhos de pelúcia, dava até pra ficar na dúvida se a falta de som não foi alguma graça proposital.

Procurando o show do Sebadoh, fui parar meio sem querer no palco ATP, o mais afastado e escuro do festival, o que por si só já criava um clima. Autolux tocando. Quando ouvi as guitarras distorcidas e a voz suave da baterista Carla Azar, não consegui sair mais dali. Eu nunca entendi bem termos como Space Rock. Mas o clima do show me fez captar um pouco do que deve ser esse “space”.

Cat Power subiu no palco pontual e discretamente, sem que ninguém a anunciasse e quando ainda nem estávamos a esperando.
A diva desencanada- calça black jeans, camisa, sapato branco e rabo de cavalo- com um quê de louca fez uma das apresentações mais fortes e sinceras do Primavera. A mulher ocupa o palco todo, com suas interpretaçoes surpreendentes (New York e The Greatest entre as melhores), dancinhas estranhas, voz divina e a intimidade que mostra ter com sua banda e com o público. Quando Cat Power canta na sua frente, a impressão é que ela está olhando no seu olho, e quer que você entenda a loucura dela.

Pra quem queria ver a volta dos sessentões e não esperava nenhuma surpresa, The Sonics foi emocionante, com todos os hits bem tocados. O baterista, na estica, de colete e chapéu, mostrava uma especial disposição para sua visível avançada idade. A gente até ficava um pouco preocupada com o cara. Bacana ouvir eles falando que quando começaram, um dos objetivos da banda sempre foi fazer Little Richards orgulhoso. Certeza que ele ainda está.

Fuck Buttons, com som pesado e perfeito na ATP agitou a primeira balada da noite de sexta no Primavera.
Só perdeu para The Go! Team que lotou o palco Estrella Damm e arredores. Mandaram “Grip it like a Vice” logo no início e mantiveram o ritmo de festa em um show de um pouco mais de uma hora, com a vocalista Ninja dançando loucamente.

A principal atração catalã do festival entrou as 3h15 da madrugada de sábado para domingo. El Guincho tocou e cantou entre 2 telões colocados no palco, que mostravam animações psicodélicas e imagens de pessoas dançando. Seu som é mais eletrônico ao vivo, mas o show dele, um tanto linear, não conseguiu me manter interessada por muito tempo.
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Day 3- 30/5- Chuva, Black Sabath e delírio coletivo

Nos poupamos um pouco dos shows do dia e chegamos na última noite do Primavera mais tarde.

Senti um certo arrependimento por não ter visto Young Marble Giants- os ingleses preferidos de Kurt Cobain- que depois de anos parados tocaram no auditório.
Mas eu sabia que essa era um noite de escolhas e queria estar inteira para o último show.

A ventania fria das noites anteriores deu uma trégua e no show pauleira do Dinosaur Jr tinham até alguns meninos animados sem camisa. Entre músicas antigas e algumas novas do último Cd, um ponto alto para mim foi “Been there all the time”.

Saímos de lá e chegamos no Alan Braxe quando ele puxava palmas da platéia e tocava sua sequencia de house mais pops, como seu remix do Tiga.

Tinderstick soltou o vozeirão grave no palco principal, para uma turma que ocupou as arquibancadas para assistir sua apresentação calminha.

Era hora do Animal Collective, que eu já tinha visto mas tem uma certa fama de fazer cada show completamete diferente do outro. Com lanternas na cabeça, tocaram primeiro as músicas mais lentas que fizeram a primeira parte do show “viajandão”. Mas ele foi ficando mais acelerado e eletrônico do meio para o final, aquecendo a turma para o que viria em seguida.

A impressão que tive é que quase todas as 19.000 pessoas presentes no Forum no domingo a noite estavam ali, iluminadas pelo show de luzes do palco na frente do Simian Mobile Disco. Difîcil dizer se é realmente o “melhor live do mundo”, até porque eles tiveram problemas com os instrumentos e fizeram um DJ set, mas com certeza foi um dos melhores momentos do festival, se não o melhor.

A sequência de hits foi infalível, de It’s the Beat, a Ready for the Floor e Hustler. Um coelho de pelúcia invadia o palco de tempos e tempos e dançava insandecido com a multidão (boatos rolaram que era o vocalista do Les Savy Fav). Quando a chuva começou, a gente – e todo mundo- tentou fingir que dava pra continuar ali. Mas o Simian já estava tocando há quase duas horas e o festival estava acabando. E acabou assim, com a gente encharcado e feliz, dancando a última que eles bem escolheram, War Pigs, e batendo cabeça.

2 comments:

Thais said...

belo texto, Fernandinha. continue sua rota por ai, cobrindo festivais. volta e meia eu corro pra te encontrar :)

Fernando T said...

caramba, como teu blog é BOM!!
amei!
espero voltar aqui sempre.
nesse monólogo de duas vias.
(quase que eufiz virar um monólogo de duas VIDAS - têm erros de digitação que, as vezes, dá vontade de deixar como ficaram)